Joana de Vilhena NovaesI
Resumo
Este trabalho visa investigar como as atitudes em relação à feiúra, quer seja ver-se feia ou atribuir
feiúra ao outro, revelam maneiras de lidar com o corpo até então não evidenciadas. A feiúra é, atualmente, uma
das mais presentes formas de exclusão social feminina, e como tal, uma importante forma de agenciamento de
subjetividade. Tomando a gordura como uma das atribuições mais representativas de feiúra na cultura atual,
apontamos para os processos de exclusão vividos por aquelas que nela se enquadram. Buscando demonstrar
como a imagem da mulher e a construção da identidade feminina estão fortemente associadas à beleza, destacamos
alguns dos qualitativos morais e estereótipos depreciativos mais comumente observados. Paralelamente,
enfatizamos o novo paradigma cultural da contemporaneidade - o dever moral de ser bela como um adicional aos
padrões estéticos de beleza que sempre existiram ao longo da história. Tomando a obrigação moral de ser bela
como parâmetro, ilustramos este trabalho, com vinhetas colhidas de pesquisas realizadas sobre práticas
corporais (malhação, cirurgia plástica e cirurgias bariátricas) que consideramos mais representativas e/ou
radicais na tentativa de evitar o desvio dos padrões de beleza socialmente estabelecidos.
I Doutora em Psicologia Clínica pela PUC-Rio
Pesquisadora e psicóloga responsável pelo Núcleo de Doenças da Beleza do CIAP (Centro de Investigação e
Atendimento Psicológico) da PUC-Rio.
joananovaes@terra.com.br
Introdução:
Do corpo belo dos deuses, ao corpo high tech das tribos e dos heróis cinematográficos, a associação beleza,
saúde, potência e sedução estará sempre presente e não poderá jamais ser desvinculada dos discursos que a
produzem e que, por ela, são produzidos. Cuidar do corpo em si, nos afirma a indústria cultural, é
indispensável. O binômio saúde-beleza, no qual o segundo termo é o determinante, uma vez que a saúde também
possui um padrão estético estabelecido, nos é apresentado como o caminho legítimo e seguro para a felicidade
individual. O estudo sobre a concepção e codificação do corpo na cultura moderna revela, então,
simultaneamente, que um outro olhar e uma atenção diferenciada estão relacionados às mudanças dos códigos
sociais.
O que significa, para uma mulher, ser feia nos tempos atuais? Qual o preço pago, os sacrifícios impostos e
os sofrimentos vividos? A quais práticas se submetem para escapar do “intolerável da feiúra?”
“A gordura acabou com a minha vida” estampava a manchete do Jornal da Família, suplemento dominical do
jornal O GLOBO, de 19/01/2003.
Sabemos que, historicamente, a imagem de mulher se justapõe com a de beleza e, como segundo corolário, à de
saúde (fertilidade) e juventude. A contemporaneidade, contudo, parece ter levado ao paroxismo tais
representações, como veremos no decorrer desse trabalho. As imagens refletem corpos supertrabalhados,
sexuados, respondendo sempre ao desejo do outro ou corpos medicalizados, lutando contra o cansaço, contra o
envelhecimento ou mesmo contra a constipação.
Implícita está a dinâmica perfeição/imperfeição, buscando atender aos mais antigos desejos do ser humano,
conforme narram os mitos, os elixires e fontes de eterna juventude.
Beleza exterior e saúde, aparência desagradável e doença, cada vez mais se associam como sinônimos, no
tocante às representações do corpo feminino. A questão tradicional, aceitar ou não o corpo recebido parece
transformar-se em – como mudar o corpo e até que ponto?
O corpo, nos dizia Levi Strauss, é a melhor ferramenta para aferir a vida social de um povo. Ao corpo cabe
algo muito além de ocupar um espaço no tempo. Cabe a ele uma linguagem que se institui antes daquilo que
denominamos “falar”, que se exprime, evoca e suscita uma gama de marcas e falas implícitas.
O corpo fala e as marcas nele feitas também. A questão estética se impõe como forma e fôrma e o que é belo
pode vir a ser feio. Da mesma maneira, o belo pode instituir um padrão de feiúra. No fundo, vivemos no fio de
uma navalha, fio este que tenuamente separa feiúra e beleza.
O presente trabalho tem como objetivo investigar qual a relação existente entre a mulher e a beleza na
contemporaneidade e qual o preço pago para “ser bela”. A feiúra, conforme demonstraremos a seguir, é uma das
mais penosas formas de exclusão social na atualidade. Mas quais são as insígnias da feiúra? Acreditamos que
significa não ter o corpo e a estética aceitos socialmente, ou seja: ser jovem, ser magro e ser saudável.
Buscamos também apontar como a imagem da mulher e do feminino continua associada à da beleza, havendo cada
vez menos tolerância para os desvios nos padrões estéticos socialmente estabelecidos. Neste sentido, tomamos a
gordura como o paradigma da feiúra e apontamos para os processos de exclusão vividos por aqueles que nela se
enquadram. As falas que ilustram o trabalho, e que utilizaremos como epígrafes, referem-se à uma pesquisa
realizada em 2001, sobre a qual falaremos mais adiante.
estética e expectativas sociais : o dever moral de ser bela
“Acho que a cultura atual preconiza que estejamos bem para poder expor ao máximo o corpo. Hoje em dia vale
muito mais um braço sarado do que roupas caríssimas, e olha que eu posso dizer, pois já fui estilista.”
A imagem de mulher se justapõe com a de beleza e, como segundo corolário, à de saúde e juventude. As
imagens refletem corpos supertrabalhados, sexuados, respondendo sempre ao desejo do outro ou corpos
medicalizados, lutando contra o cansaço, contra o envelhecimento ou mesmo contra a constipação. Implícita está
a dinâmica perfeição/imperfeição, buscando atender aos mais antigos desejos do ser humano, conforme narram os
mitos, os elixires e fontes de eterna juventude
No mundo das imagens contemporâneas existem muito mais mulheres do que homens. Nossa cultura exibe a
mulher, permanentemente, como forma de reforçar seus arquétipos. Destinada ao público feminino -,
identificação com o modelo, ou a um público masculino -, registro da alteridade desejável, menos do que a
femininização do mundo, como apontam alguns, esta exposição parece reforçar a idéia de colocar em imagens o
objeto de desejo. A mulher representada nas imagens encarna o Outro da nossa cultura.
Courtine (1995) evidencia, através de alguns exemplos históricos, o fascínio e o estado de corpolatria
característico da sociedade em que vivemos. Segundo o autor esse processo remete-nos ao fato de que, em outros
momentos históricos, a apreciação estética do corpo, se dava de uma forma menos fragmentada, na qual não
estavam em jogo pedaços/recortes da anatomia humana, sendo valorizado um todo harmônico.
“A atração que Charles Atlas exercia sobre o público dos anos 20 centrava-se na visão do conjunto de uma
pujança corporal harmoniosa; o sucesso de Jhonny Weismuller, nas salas de cinema dos anos 40, decorria da
elegância “natural” de sua musculatura (...) A fascinação que o corpo de Schwarzenegger provoca sobre o grande
público da telinha é de outra natureza: congelado numa luz crua, quase cirúrgica, o body-builder faz
sobressair os mínimos detalhes de sua massa corporal. Estrias das fibras musculares, ramificações da rede
vascular, palpitações de um tórax estufado: a imagem ideal do corpo que o body-builder de hoje configura é
aquela dos corpos destinados aos estudos anatômicos”. (p.103)
É também preciso ressaltar que o controle exercido através da fiscalização de um olhar minucioso sobre a
aparência e com o aval da ciência, contribui para regulamentar diferenças e determinar padrões estéticos em
termos daquilo que é próprio e impróprio, adequado ou inadequado, normal ou anormal. Como bem sugere Durif, “o
corpo torna-se álibi de sua própria imagem. (apud Daniels1999:29).
Esse controle da aparência traduz-se não somente na atribuição de características estéticas, como
investem-nas de julgamentos morais e significados sociais.
“Um professor disse que se eu emagrecesse me tratariam diferente. É claro que os caras não vão olhar para
uma banhuda e sim para a saradona, mas as pessoas acham que se emagrecessem passariam a fumar Marlboro,
andariam de BMW e os cabelos cresceriam louros.” (sic)
É interessante notar como os discursos que normatizam o corpo, sejam eles científico, tecnológico,
publicitário, médico, estético, etc., vão, pouco a pouco, tomando conta da vida simbólica/subjetiva do
sujeito. Nas palavras de Daniels, (1999):
“As instâncias que normatizam o corpo invadem as dimensões expressivas e simbólicas da corporeidade,
fornecendo imagens e informações que reconfiguram o próprio âmbito do vivido corporal. O leitor é sempre
aquele que possui um conhecimento muito limitado e confuso de seu corpo”. (1999:50)
Com efeito, os cuidados físicos revelam-se, invariavelmente, como uma forma de estar preparado para
enfrentar os julgamentos e expectativas sociais. Da mesma forma, todo o investimento destinado aos cuidados
pessoais com a estética vincula-se à visibilidade social que o sujeito deseja atingir – evitar o olhar do
outro ou a ele se expor está diretamente relacionado às qualidades estéticas do próprio corpo!
Segundo Malysse (1997), esforçamo-nos o ano todo com exercícios massacrantes para no verão termos a
recompensa de poder ir à praia expor nosso corpo sem vergonha. Disciplinamos o corpo a freqüentar uma academia
de ginástica a fim de que, às custas de muito suor e calorias perdidas, consigamos reconhecimento social e
aprovação.
O prazer é, irreversivelmente, associado ao esforço, o sucesso à determinação, e a intensidade do esforço é
claramente proporcional à angústia provocada pelo olhar do outro. Nada aqui é gratuito – tudo é obtido num
sistema de regulação de trocas, seja ele dentro da lógica capitalista ou inserido no pensamento do sacrifício
cristão.
Em um artigo intitulado “Os Stakhanovistas do Narcisismo”, Courtine (1995) discute o caráter hedonista, que
muitos apontam na chamada cultura do corpo. Retraça a origem aos Estados Unidos, país onde as práticas
sociais, sobretudo aquelas ligadas ao corpo, são mais evidentes e aponta para o caráter prescritivo das
disciplinas corporais, herança do puritanismo e da cultura do “faça o melhor de si mesmo”. Para Courtine, “a
pastoral do suor”, de inspiração puritana, foi uma as molas mestras do body building, com a crença de que a
moralidade não é apenas uma questão só de piedade religiosa, mas também de forma e disciplina muscular.
De acordo com Durif, (1990) a imagem que as revistas oferecem para os leitores a respeito de seus próprios
corpos, investe neste jogo de espelhos produzido entre o corpo e o olhar do outro, operando na construção da
auto-estima e da auto-imagem, sendo: “tanto um eixo de construção como lugar de contradições inibidoras devido
ao poder de coação social voltado para suas dimensões mentais, afetivas e sociais”. (1990:309)
Para Roland Barthes, (1982) a imagem corporal deve ser compreendida como uma resultante da influência que o
ambiente exerce sobre o sujeito, num processo em que as representações corporais estão em constante
transformação. Assim, nas palavras de Barthes: “meu corpo é para mim mesmo a imagem que eu creio que o outro
tem deste corpo”. (1982:645)
Contudo, sua maior contribuição foi destacar que inúmeras táticas de sedução e intimidação são elaboradas
como um reflexo da fragilidade e vulnerabilidade existentes na construção da própria imagem corporal. Tais
estratégias são articuladas para darem conta da expectativa que supomos os outros terem sobre o nosso corpo. E
é este aspecto tirânico das relações humanas com referência ao corpo, que justifica a constelação de atitudes
negativas face à feiúra.
Aparentemente tratada como banal, a modelagem da boa aparência na verdade é investida de grande carga
ideológica, fazendo com que a lógica do consumo permeie todos os investimentos estéticos.
Em recente pesquisa (Novaes 2001a,b) sobre as academias de ginástica da zona sul carioca observou-se, na
fala das entrevistadas, o terror que a gordura provoca:
“Na cultura e na moda atual, infelizmente, conjugamos: roupas ínfimas com corpos secos, destituídos de
qualquer gordura, para meu desespero, gordinhas não são apreciadas.” (sic)
“..conforme já disse, quando venho malhar e mantenho o meu peso ideal tá tudo azul, saio, me divirto, levo
uma vida normal, quando não - é depressão na certa, não me relaciono nem com os meus filhos. Namorado
então, nessas épocas, nem pensar!” (sic)
Como podemos observar, a ordem é cooptar tudo que desvie do padrão. E nada, na atualidade, é mais
divergente do padrão do que a gordura – a exemplo do movimento negro, talvez fosse o caso de criarmos uma ação
afirmativa para os gordos!
o difícil peso da gordura:a dor da feiúra
“...se não saio para malhar, fico ociosa comendo em casa, conseqüentemente engordo e por fim deprimo.
Nessas fases, nem acendo a luz porque não suporto a minha imagem horrorosa, caída, toda flácida no espelho.”
Em um interessante artigo que trata a obesidade como um fenômeno social com diversas representações,
Fischler, (apud Sant’Anna,1995) tenta construir uma classificação dos estereótipos morais ligados aos obesos.
Uma das primeiras coisas assinaladas pelo autor é o caráter de ambigüidade que as representações sociais
sobre a gordura assumem no imaginário atual. Damos aos obesos um tratamento contraditório e nele, reside um
paradoxo importante a ser destacado: aos gordos, associamos estereótipos como simpatia e amabilidade, por
outro lado, sua imagem inspira a lipofobia como um sintoma social. E é neste horror à gordura, que uma série
de técnicas de emagrecimento são forjadas - avalizadas pelos discursos construídos nas malhas da cultura do
fitness e do bodybuilding.
Na contemporaneidade, a obesidade assume a forma mais representativa de alijamento social. Com relação ao
julgamento social sobre a gordura, chamamos a atenção para a mais interessante contribuição que o texto de
Fischler (1995) nos oferece: a criação de dois tipos fundamentais de estereótipos morais referentes à
obesidade.
Nesta classificação, o autor divide os obesos em dois grupos que variam de acordo com determinados padrões
de comportamento e cujas denominações são as seguintes: obesos benignos e obesos malignos. No primeiro grupo,
o autor enquadra o indivíduo de comportamento expansivo, extrovertido, brincalhão – o típico gordinho “boa
praça”, que parece querer desculpar-se pela inadequação física compensando tal fato por meio da convivência
agradável. Já no segundo, figuram as pessoas que se negam a efetuar qualquer tipo de transação simbólica com
vistas a serem socialmente aceitas. Frases do tipo: gordo tem obrigação de ser simpático, ilustram bem o que
autor tenta demonstrar em seu argumento.
Ao que parece, as pessoas bonitas têm prerrogativas. Ao vermos uma pessoa muito bonita parecemos desculpar
todo e qualquer tipo de defeito de caráter. Inversamente proporcionais aos comentários depreciativos em
relação às pessoas gordas, são aqueles associados aos indivíduos de bela aparência. Aos belos, tudo é
desculpado e permitido, pois a beleza, em si, é a moeda de troca.
Não havendo qualquer tipo de restituição simbólica que possa despertar a piedade alheia, os gordos
pertencentes ao último grupo são mantidos excluídos, feito párias, pois já não participam das regras do jogo
social.
Não à toa, na sociedade contemporânea, os obesos são denominados “malignos” ou “malditos” – como no jocoso
termo empregado por Fischler. Possuem também um comportamento visto como depressivo e por isso, desprovido da
obstinação necessária para a contenção de suas medidas corporais. Enfim, sua imagem demonstra um certo
desânimo perante a vida e traduz fracasso no agenciamento do próprio corpo e dos seus limites.
Numa sociedade como a nossa, na qual o máximo da valoração social não reside na realização das
ideologias/utopias, mas na realização dos projetos individuais – nada, então, mais antipático e que desperte
menos solidariedade do que um indivíduo incapaz de empenhar-se no projeto pessoal da boa aparência.
Se, historicamente, as mulheres preocupavam-se com a sua beleza, hoje elas são responsáveis por ela. De
dever social (se conseguir, melhor), a beleza tornou-se um dever moral (se quiser eu consigo). O fracasso, não
se deve mais a uma impossibilidade mais ampla, mas a uma incapacidade individual.
Enquanto nos séculos passados podíamos culpar a natureza, na contemporaneidade, a negligência é a
responsável e a culpa é individual. Segundo Baudrillard (1970), o que hoje podemos observar é a "moralização
do corpo feminino", o que indica a passagem de uma estética para uma ética do corpo feminino.
Partindo, então, da premissa de que os imperativos estéticos são, simultaneamente, produzidos e reforçados
por expectativas socialmente instituídas, é possível concluir-se que é a relação com a alteridade, ou seja,
com o olhar do outro, que atribui uma avaliação demasiadamente depreciativa a respeito da imagem corporal que
o sujeito constrói sobre si. Nota-se, contudo, que ao descrever a própria imagem, o indivíduo tende em querer
desvencilhar-se dos adjetivos mais depreciativos, fazendo uso de eufemismos e diminutivos para mascarar sua
real aparência.
É interessante notar a maneira peculiar e afetuosa, parecendo muitas vezes negar a realidade, como a
maioria das mães de crianças obesas descrevem seus filhos – referem-se aos mesmos como gordinhos, cheinhos ou
gulosos, enquanto na escola seus colegas utilizam-se de adjetivos agressivos e que denotam uma evidente
depreciação moral: (balofo, hipopótamo, paquiderme, rolha de poço...) Usando este tipo de denominação, as mães
parecem desculpar seus filhos perante a sociedade, que os encara como glutões e inadequados. É também através
da adjetivação carregada de afeto que fornecem a valoração não encontrada socialmente.
Fischler (op.cit) sublinha, ainda, um outro tipo de julgamento moral que surge de forma recorrente no
imaginário social. Nele, indagamo-nos se os gordos são vítimas do seu metabolismo e da sua carga genética ou,
culpados por um comportamento transgressor com relação à comida.
De acordo com a enquête feita pela autor, um número expressivo de pessoas atribuem aos obesos a
responsabilidade por sua condição, ou seja, são considerados, simultaneamente, descontrolados e com uma
voracidade desmedida. Embora, socialmente, compreendidos possuidores de uma espécie de compulsão, no caso da
glutoneria, o sentimento moral de culpa e responsabilidade não lhes é aliviado.
Como bem aponta o autor, as categorias que representam a gordura, a magreza e a obesidade mantém-se,
relativamente, estáveis ao longo dos séculos. Contudo, é preciso que estejamos atentos, pois são os critérios
que determinam o limiar entre uma e outra, que sofrem grandes variações. Nas palavras do autor: ”era preciso
sem dúvida, no passado, ser mais gordo do que hoje para ser julgado obeso e bem menos magro para ser
considerado magro” (1995:79)
Em última análise, nota-se que na atualidade a tolerância para com a gordura diminuiu drasticamente,
chegando, até mesmo, a ser enquadrada na forma de uma categoria de exclusão. Carregada de estereótipos
depreciativos, a gordura dá lugar a magreza, que é, então, positivada e exaltada.
Assim, a mesma cultura que elege o corpo como lócus privilegiado dos investimentos individuais produz,
simultaneamente, sujeitos lipofóbicos e o atual estado de corpolatria do qual somos todos testemunhas.
O discurso publicitário seja na área dos cosméticos, seja na da saúde, vai apontar para a mesma vertente.
No cenário público, os corpos devem adequar-se à função de durabilidade, à prova de velhice, que antes se
esperava das mercadorias. O que é feio, finito, perece e morre… não consome e, indiscutivelmente, ainda não se
encontrou um valor mercadológico ou de troca para esse fenômeno.
Conclusão
“Para mim é assim, acho que a gente não tem que conviver com aquilo que a gente não gosta, eu, por exemplo:
não gostava do meu nariz - fiz plástica; achava que tinha uma bola nos quadris - lipoaspirei o culote; achava
que tinha seios pequenos demais - virei Barbie, taquei silicone, não queria esperar o meu cabelo crescer -
coloquei um Mega hair.”
Iniciamos nosso trabalho dizendo que o discurso do corpo fala das relações internas à sociedade. Palco
privilegiado dos paradoxos e dos conflitos, o corpo como obra de arte é o corpo teatralizado, palco onde as
palavras são encenadas. Tal qual nas cidades povoadas pelos murais e outdoors, uma nova forma de escritura se
estabelece. O tamponamento do real, o horror da imperfeição e da finitude, nas palavras de Augras:
"A distância entre o modelo da revista e o reflexo no espelho também contribui para a dificuldade de
integração. Não se trata apenas de conciliar senso de realidade e aspirações narcisistas. O que propõem as
fotografias são corpos imaginários, abstratos e inatingíveis e, por assim dizer, eternos. Não são submetidos à
dor, nem ao envelhecimento, ainda menos à morte..." (Augras,1996:44-45/ grifo nosso)
É numa sociedade globalizada, dividida entre ganhadores e perdedores e sem ideais, que os sujeitos
entregam-se às compulsões. Nessa urgência, como aponta Mendlowicz (2000), qualquer espera equivale ao
desespero, causado por uma enorme intolerância com aquilo que o atrapalhe em sua busca pela perfeição.
E nada mais distante da perfeição, na sociedade atual, do que a feiúra.
“O que não suporto é gente se lamuriando insatisfeito com o próprio corpo, mas que não faz nada a respeito.
No meu caso, por exemplo, quando começar a sentir que tem algum excesso eu vou me cortar”. (sic)
As falas das entrevistadas, no estudo anteriormente mencionado, apontam claramente para os recursos, cada
vez mais utilizados, em busca do corpo ideal.
Se todas as culturas, de uma forma ou de outra, praticaram a modificação corporal, as práticas atuais,
adquirem um caráter muito mais individualista e violento, no seu afã de questionar as relações
natureza/cultura, homem/máquina.(Novaes,2003)
Um bom exemplo, é o estatuto que a feiúra passou a ocupar na contemporaneidade, bem como suas novas
representações. A feiúra, freqüentemente associada à gordura, sofre uma das maiores formas de discriminação
nas sociedades que cultuam o corpo. Para eliminá-la, mitigá-la ou disfarçá-la, todos os esforços e sacrifícios
serão dispendidos. Discriminação ostensiva, manifesta e sem culpa, ao contrário dos negros, pobres, gays ou
qualquer outra minoria - discriminamos os feios e/ou gordos sem nenhum pudor ou vergonha.
Mas o que significa ser belo ou feio? Fosse este um trabalho sobre estética, certamente teríamos de nos
alongar mais em nossas definições. Não é o caso. Longe de naturalizar a relação gordura/feiúra, buscamos,
justamente, apontar como o desvio do padrão estético “da moda” remete o sujeito, sobretudo as mulheres, para o
limbo da exclusão e para as exaustivas práticas do culto ao corpo.
Para finalizar gostaríamos de retornar à indagação que Freud faz em 1930 acerca da beleza. Em “O Mal Estar
na Civilização”, o autor mostra-se intrigado acerca da valorização da beleza pela civilização, ainda que esta
não lhe proporcione nenhuma utilidade. No mesmo texto, o autor caracteriza a fruição da beleza como uma
estratégia para buscar a felicidade. A esta fruição, Freud dá o caráter de um “sentimento
tenuamente intoxicante” referindo-se ao sexo feminino como o “Belo Sexo”.
Qual seria o significado desta coisa inútil sem a qual não podemos passar? Reza o ditado popular que uma
imagem vale mais do que mil palavras! Em uma cultura, com cada vez mais telas e menos páginas, as
imagens passam a constituir, por si só, a realidade ao invés de retratá-la, reproduzi-la e representá-la. A
imagem toma o lugar do sujeito e, sem perspectiva de si mesmo, haverá identidade possível?
Para ilustrar recorreremos a Perrot (1984) e seu conceito de ortopedia mental. Interrogando-se a respeito
do ideal feminino de emancipação, analisa, historicamente, as conquistas femininas e sugere, de forma irônica,
mas categórica, que estamos vivendo uma ditadura bem mais severa do que todas até então vivenciadas pelas
mulheres.
O autor considera os diversos procedimentos de produção e manutenção do bom aspecto do corpo feminino,
entraves bem maiores na vida das mulheres do que os fardos que deflagraram a queima de soutiens em praça
pública ou mesmo o discurso médico atestando o mal que os espartilhos causavam.
Segundo Perrot, (op.cit) com a maior exposição do corpo as atenções sobre a pele intensificam-se, assim
como a rotina de cuidados com a aparência física. Para designar essa tentativa frenética de reformatação e
adequação das formas, Perrot cunhou o termo ortopedia mental. O termo descreve com uma precisão jocosa, uma
ordem ainda mais tirânica que as já conhecidas formas que levaram à subserviência feminina.
Nada mais cruel do que lutar com um inimigo implacável e inexorável. Contra a ação do tempo as mulheres
lutam, tentando manter-se sempre jovens e belas. Frenéticas e enlouquecidas, consumindo compulsivamente toda
sorte de produtos que prometam retardar o seu envelhecimento e manter sua beleza, essas mulheres lutam contra
si, perdendo-se no espelho à procura de si mesmas. Se antes as roupas as aprisionava, agora se aprisionam no
corpo - na justeza das próprias medidas.
Contudo, mais uma vez é necessário cautela. Não há como pensar que todas as mulheres vivem essas
transformações de forma passiva e acrítica. Neste sentido, nunca é demais relembrar que o discurso do corpo
fala das relações internas à sociedade e também nele vai se expressar a busca da felicidade plena.
Como todo culto, como toda moda, o impacto da moda do culto ao corpo sobre a sociedade, só pode ser
detectado a partir da compreensão da maneira como seus ditames são interpretados pelos indivíduos que, no
interior de diferentes grupos sociais, lhes emprestam significados próprios. Como aponta Strozemberg (1986) o
receptor nunca recebe passivamente uma mensagem, mas sempre, necessariamente, a interpreta e reelabora, na
medida em que toda a decodificação é uma leitura. A experiência do corpo é sempre modificada pela experiência
da Cultura.
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